A metralhadora do senador voltou-se, de preferência, contra os intelectuais e artistas, sendo que alguns resolveram se rebelar contra a perseguição que estava impedindo os melhores artistas americanos de trabalhar. Muitos emigraram, alguns se suicidaram e uma boa parte passou fome. Entre estes artistas indignados encontrava-se o já famoso regente e compositor Leonard Bernstein, autor não só de peças eruditas como de alguns musicais de grande sucesso na Broadway ( On the town, Wonderful town) . Contra o fundo nacional de macarthismo, listras negras e caças às bruxas, o filão de musicais cheios de otimismo, como Oklahoma! , baseados nos anos Eisenhower, cheios de nacionalismo vazio, já não se justificava: o mundo não era tão cor-de-rosa como ali era cantado e dançado com tanto otimismo.
Em 1953 a escritora teatral Lilian Hellman – cujas duas peças The children's hour (Infâmia, no Brasil) e Little foxes lhe haviam rendido celebridade na Broadway, encenações em vários países, roteiros que ela própria transformou em dois excelentes filmes e um libreto (de Little foxes ) para uma ópera de sucesso de Marc Blitzstein, Regina – sugeriu a Bernstein, como assunto para um musical, Candide ou l”Optimisme , a picaresca de Voltaire, idéia surgida a partir de suas experiências com o senador McCarthy e seus colegas de Congresso.
A novela, de 1758, satirizava uma filosofia em moda na época, o otimismo, escola do filósofo alemão Leibniz e popularizada pelo poeta inglês Pope. O lema de Leibniz era “tudo é pelo melhor, no melhor dos mundos possíveis”. Voltaire satirizava a guerra e a ganância, aceitas como elementos inevitáveis da sociedade civilizada. No mundo pelo qual Candide viaja na novela, todos os soldados são heróis (desde que estejam do nosso lado), a igreja oficial é hipócrita e dissimulada e o amor romântico traz consigo a ameaça de uma doença fatal (a sífilis, naquele tempo).
Candide é acompanhado em suas andanças pelo filósofo e tutor Pagloss, em cuja filosofia tudo o que acontece, por mais desastroso que possa aparecer, sempre será, no final, para o melhor. Voltaire adverte, especialmente, para o otimismo que não deixa ver a verdade, que impede que se corrijam as injustiças, os erros, que nos impede de ir adiante. Se tudo está bem, para que mudar?
Lilian Hellman resolveu aproveitar o pequeno texto onde se encontravam as idéias básicas da filosofia voltairiana: a crítica mordaz de todos os princípios tradicionais, políticos, religiosos e filosóficos, e a pregação por uma Constituição em todos os países, o combate à intolerância religiosa, às colonizações, e se batendo pelo respeito à consciência e à liberdade individual e pela liberdade de pensamento. Hellman criou assim um paralelo entre aquela época preconceituosa e o obscurantismo que envolvia a América. Hellman viu, ainda, um sinistro paralelo entre os famosos autos de fé, expurgos organizados pela igreja católica, às bruxas do Comitê de Atividades Antiamericanas. Cheia de raiva e indignação ela começou a escrever a sua adaptação de Voltaire; John La Touche foi chamado para letrista enquanto Bernstein fazia os primeiros rascunhos musicais. La Touche foi logo substituído pelo poeta Richard Wilbur e os três trabalharam intermitentemente por dois anos e depois, seriamente, em 1956, até que o musical pode ser estreado em outubro, em Boston.
Durante as representações em Boston, Dorothy Parker contribuiu com novos versos, bem como Hellman e Bernstein. Em primeiro de dezembro fez-se a estréia em Nova York , mal recebida pela crítica, que viu a sátira de Hellman muito pesada e intelectual e a sofisticação da música um vaidoso estilo opereta, não um musical, o que não agradou ao público. Conseguiu ficar em cartaz até fevereiro de 1957. Houve uma gravação bem sucedida e a partitura de Bernstein foi ganhando status de cult .
Em 1958 foi montada uma produção em Londres, com o roteiro revisto por Hellman e acréscimos (letra e música) do próprio Bernstein. Em 1971 a Los Angeles Civic Light Opera teantou uma revisão do libreto de Hellman e redistribuiu os números musicais. Apesar de ter sido levada em San Francisco e Washington, também não fez sucesso.
Em 1973 o diretor Harold Prince com o letrista Hugh Wheeler fizeram uma versão reduzida, com a anuência de Lillian Hellman (que retirou, definitivamente, sua adaptação original, de forma que a versão de 1956 não pode mais ser vista), estreada no Brooklin em 1973 com novas letras de Stephen Sondheim e uma orquestração de Hersh Kay para apenas 13 instrumentos.
Quando a peça se transferiu para a Broadway, o teatro teve todo o seu interior reconstruído, para o público sentar-se no meio e a representação ser feita ao longo das paredes. Um elenco jovem e alegre e uma direção musical elétrica de John Mauceri, fizeram deste Candide um sucesso de crítica e de público. Em 1982, Beverly Sills, então diretora da New York City Opera, montou a primeira versão de Candide para um teatro de ópera. Nela muito da música que havia sido cortada em 1973 foi reintroduzida por John Mauceri, sob a supervisão do próprio Bernstein; novas cenas foram escritas por Hugh Wheeler, adaptadas de Voltaire. Em 1988 John Mauceri, agora diretor da Scottish Opera, montou uma produção com mais música, incluindo novas, criadas por Bernstein, enquanto que Hugh Wheeler fazia mais adaptações. Bernstein, tendo assistido os ensaios e as representações de Glasgow e depois as de Londres, achou que era hora do próprio compositor reexaminar Candide . A partir da versão da Scottish Opera ele retirou, acrescentou, restaurou, trocou de lugar e reorquestrou a obra. Esta versão revista e renovada foi apresentada em concerto, pela London Symphony Orchestra, em dezembro de 1989, sendo gravada e posta em vídeo, regida pelo próprio Bernstein que para ela criou a narração, junto com John Wells. É esta versão para concerto que será apresentada, pela primeira vez no Brasil, em português, na tradução de Claudio Botelho.
Candide, o musical (como se queria na época), a opereta (como queria Bernstein), ou a ópera-cômica (como se quer hoje), nada perdeu de sua atualidade: aí estão as guerras de Kosovo, da Xexênia, do Timor-leste, todas fruto de intolerâncias raciais, religiosas, étnicas, políticas, bem como a fome que dizima a África e outros países bem conhecidos. Como não ver que o progresso, que tanto encanta o Dr. Pangloss, traz uma série de problemas humanos e sociais e que na opereta traz mais malefícios que benefícios? O núcleo central da obra, o otimismo, que não nos deixa ver os acontecimentos, é um alerta para que tenhamos um pouco de pessimismo, não nos lancemos em aventuras cujo fim não podemos adivinhar, por bem intencionadas que sejam.
Daí Candide ter voltado a todos os palcos do mundo no último decênio do século XX por sua atualidade, seu passeio pelo mundo onde se mascaram verdades através de uma pintura cor-de-rosa. Esta atualidade está presente também no Brasil com todos os seus problemas não resolvidos, acrescidos agora de novos, próprios deste início de século, para os quais não podemos por os óculos do Dr. Pangloss e nem ter a ingenuidade de Candide, sempre aproveitada pelos não cândidos do mundo. Tudo isto podemos aprender através de Candide , só que rindo e nos divertindo e, sobretudo, gozando da maravilhosa partitura musical de Bernstein, um trabalho de gênio em termos de música satírica (existe música picaresca?), hoje um cult no mundo inteiro, seja na música clássica, seja na popular.
Bruno Furlanetto
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Candide
Opereta cômica em dois atos
Versão para concerto de 1993
Música
Leonard Bernstein
Letras
Richard Wilbur
Letras adicionais
Stephen Sondheim, John LaTouche, Dorothy Parker, Liliam Hellman e Lernard Bernstein
Narração do concerto criada por
Leonard Bernstein e John Wells,
Adaptado
da sátira de Voltaire e do texto de Hugh Wheeler;
Editado e suplementado
por Erik Haagensen
Orquestrações
Leonard Bernstein e Hershy Kay
Continuidade musical e orquestração adicional
John Mauceri
Traduzido e adaptado para o português
Claudio Botelho
Direção
Jorge Takla
Cenários e figurinos
Charles Möeller
Direção musical e regência
Luís Gustavo Petri
Iluminação
Jorge Takla
Maestro ensaiador
Manuel José Cellario
Coreografia
João Wlamir
Pianistas
André Cardoso, Aurélio Vinicius Melleh e Priscilla Bonfim
Orquestra Sinfônica e Coro do Theatro Municipal
Candide
Fernando Portari, tenor
Cunegunda
Denise Tavares, soprano
Pangloss e Martin
Sandro Christopher, barítono
Velha senhora
Regina Elena Mesquita, mezzo-soprano
Governador Vanderdendur e Ragotski
Paulo Mello, tenor
Paquete
Nadja Daltro, soprano
Maximilian e Capitão
Leonardo Páscoa, barítono
Narrador
Claudio Botelho
Padeiro, inquisidor III, tsar Ivan, juiz e croupier
Gustavo Faria, baixo
Inquisidor I, príncipe Charles Edward, fruteiro, senhor I e juiz
Marcos Menescal, tenor
Doutor, inquisidor II, rei Stanislau, senhor II e juiz
Ataíde Beck, barítono
Ambulante, inquisidor II, rei Herman Augustus, senhor II e juiz
Fabrício Claussen, barítono
Alquimista, inquisidor, sultão Achmet, bandido, senhor I e juiz
Luciano Botelho, tenor
Temporada brasileira
Teatro Municipal do Rio de Janeiro
30 de setembro, 02 e 03 de outubro de 2000
& de 15 de dezembro a 5 de janeiro de 2002
Produção
Axion Produtores Associados